22 de outubro de 2012

O que o ranking (não) explica nos ATPs 250 de 2012


Acabou a temporada dos ATPs 250. Aqueles torneios mais ganháveis para tenistas fora do top 20 e com possibilidades de boas campanhas para alguns beirando o top 100. Torneios que sempre geram perguntas do tipo: por que o cara não sai umas três semanas dos Challengers e tenta qualifyings ou até entrar direto em um ATP 250 fraco? Por que o cara, top 50, não entra em um ATP 250 como cabeça de chave ao invés de esperar o ATP 500 da próxima semana, podendo pegar um top 10 na estreia? O Brasil Open é um dos torneios mais fracos e sem estrelas entre os ATPs 250?

Primeiro, o torneio ser “fraco” é sempre relativo. O ranking mede a fraqueza? Aposto que muitos tenistas que vão disputar um torneio na grama preferem pegar um top como Nicolas Almagro a ter uma estreia contra Lukas Rosol (ah, Rosol...) ou Ivo Karlovic. Ou então, no saibro, preferem uma chave com o (ex-)top Mardy Fish ao veterano 90º do mundo Filippo Volandri (ah, Volandri...). O ranking não ganha jogo – e se ganhasse nem precisaria ter o sorteio e os jogos.
Calendário de tenista. Crédito: Google

Segundo, porque a escolha de um calendário envolve muito mais variáveis do que ver se o ranking dos inscritos é “bom” ou “ruim”. Pra quem vive nos Challengers, envolve dinheiro para longas viagens, assumindo o risco de não ter o retorno financeiro nem de posições no ranking. Pra quem já está na faixa dos 60 do mundo (ranking que entraria direto em qualquer ATP 250 em 2012), envolve o piso, a experiência que teve no torneio no ano anterior, condições de jogo na cidade (altitude, clima, etc), distância do torneio da próxima semana, preferir um Challenger em seu país, etc, etc, etc. Um exemplo da última semana, o italiano Andreas Seppi, campeão em Moscou, foi questionado porque não disputou o ATP de St. Petersburgo neste ano. A resposta: tinha jogado a Copa Davis (na Itália) e na semana seguinte, junto com St. Petersburgo, Metz (na França) era mais perto.

Este post não quer montar o calendário de um tenista ou tentar trazer nenhuma resposta. Aliás, este post nem deveria existir... Não há propósitos. Mas o final do ano já começa a proporcionar as respeitáveis retrospectivas. Para quem gosta de números e estatúpidas, deixo uma tabela com conclusões inconclusivas relacionando ranking e os 40 ATPs 250 de 2012. Rankings, números, médias, cálculos. Não há considerações sobre a fase do jogador, o piso ser seu ponto forte, os adversários que ele enfrentou, etc. Ficou pequena, mas a (falta de) ideia está aí.



Quase conclusões
- Torneios pré-Grand Slam tendem a ter cabeças com rankings melhores e a fechar last direct acceptance em rankings baixos.

- Só 3 títulos ficaram fora dos cabeças de chave.

- 14 títulos ficaram com os cabeças 1.

Uma foto do Australian Open, só porque é o mais
legal dos Grand Slams. Crédito: Google
- Antes do Australian Open, um cabeça em Chennai não entraria na chave na semana seguinte, em Sydney. Pra quem quer se aventurar na Índia, as oportunidades podem estar aí. Ou não.

- Kitzbuhel e Los Angeles foram muito “fracos”. Em 2012, isso se explica pelos Jogos Olímpicos na semana seguinte. Em outros anos, nunca se sabe.

- ATPs 250 são bem “entráveis” pra quem está próximo do top 100. Só 8 torneios tiveram last direct acceptance abaixo do número 90. Mais uma vez, em 2013 isso vai se repetir? Nem preciso responder...

Inconclusões
- Número 1 do mundo não joga ATP 250. Não, é um dado pontual, de 2012. Vez ou outra o líder do ranking vai buscar ponto$ em torneio$ como o de Doha.

- O 100 do mundo consegue entrar na chave dos três ATPs 250 da Gira Sul-americana. Em 2012, conseguiu. Em qualquer outro ano, nunca se sabe.

- Casablanca foi o torneio mais fácil para o campeão. Pela média dos ranking dos derrotados pelo campeão (Pablo Andujar), sim. O que não diz nada. Ele pegou três top 100 (83º, 85º e 52º) e o número 544º nas quartas. E se tiver sido a chave mais fraca, azar da chave.

- A soma de Buenos Aires também mostra a facilidade para o campeão? David Ferrer ganhou de um qualifier, dois convidados (entre eles Fernando Gonzalez buscando a aposentadoria) e ainda assim teve que superar David Nalbandian (então 85º) e o cabeça 2, Nicolas Almagro, então 11º. Fácil?

- Delray Beach, outra várzea? Kevin Anderson eliminou os cabeças 1 (John Isner) e 4 (Andy Roddick), então 11º e 30º do mundo. A estreia contra um qualifier 502º da ATP faz a média crescer, mostrando que os números estão aí pra serem manipulados.

- Em Halle, tomo mundo lembra que Tommy Haas foi campeão sobre Roger Federer, então 3º, e nas quartas tirou Tomas Berdych, 7º. Na semi, ainda teve Philipp Kohlschreiber, 34º. Adversário de respeito, seja “pelo ranking” ou pelo jogo que têm na grama. E as duas primeiras rodadas? Foram dois top 30. Bernard Tomic jogou sete games e abandonou e Marcel Granollers, cabeça 6, o sonho de muita gente em uma segunda rodada na grama. O torneio foi o mais difícil?

- Doha fechou os 8 cabeças e last direct acceptance com rankings muito melhores do que Brisbane e Chennai – na mesma semana. E foi o torneio que o campeão teve o caminho mais “tranquilo” – em termos de ranking, claro. Jo-Wilfried Tsonga estreou contra um qualifier 118 passou por dois tenistas fora do top 60 e quando ia pegar o número 3 do mundo, Roger Federer deu WO na semi. A final foi vencida sobre Gael Monfils, então 16º. Em Chennai, o torneio mais “fraco” da semana, Milos Raonic precisou vencer dois top 10 – Almagro e Janko Tipsarevic – para ser campeão.

Depois da curva
Escrevi um monte pra não dizer nada. Enfim, é a prática de alguns blogs. Criando uma tabela cheia de números, há a possibilidade de derrubar cada “conclusão” da mesma. Pra quem quiser praticar a distorção de números para provar alguma tese, fica aí a sugestão de exercício com a tabela acima.

Semana que vem tem as estatúpidas dos ATPs 500. Não esperem para perder.

16 de setembro de 2012

Enfim, o fim


Fazia tempo que um final de semana não reunia tantos destaques de tênis para o Brasil. Ao menos em quantidade, o meio de setembro mostrou um final, um possível começo e, quem sabe, recomeços.

Em semana sem ATPs, as atenções sempre estão na Copa Davis e um longo caminho de volta ao grupo Mundial foi percorrido durante 9 anos. A queda para o Grupo 2 das Américas e 6 anos seguidos ficando perto. Temporadas sem ter adversários no grupo 1 das Américas, mas com derrotas inesperadas (Equador, em Porto Alegre, em 2009), inexplicáveis (Índia de Devvarman e Bopanna, em 2010) e indigestas (Rússia, com dois match points, em 2011).

A mesma Rússia do ano anterior cruzou o Atlântico e só repetiu um jogador da convocação de Kazan. Sem a experiência dos top 50 Mikhail Youzhny e Nikolay Davydenko, sobrou para Igor Andreev e Teymuraz Gabashvili se deliciarem no saibro de São José do Rio de Preto. No papel, a melhor chance do Brasil considerando o momento dos jogadores de cada equipe, o piso, a torcida, o clima, etc.


Expectativa que se cumpriu sem a tradicional tensão de Copa Davis. Os sustos, talvez, foram no set que Gabashvili tirou de Bellucci, no vacilo de Melo/Soares ao abrirem 5/1 e só fecharem o set inicial por 7/5 e o set point que a dupla russa teve no terceiro set. Poderia ter significado um gás extra para o jogo, ainda que dificilmente Bellucci perderia no domingo contra o baleado Andreev ou se o capitão russo o trocasse por Alex Bogomolov.

Tirando Andreev, que foi peça importante no vice de 2007, a Rússia trouxe ao Brasil tenistas com 1-3 (Gabashvili), 0-2 (Bogomolov) e 0-0 (Stanislav Vovk) em Davis. Mesmo sem os dois “cortados” em cima da hora, os europeus ainda tinham dois nomes com mais vivência em Davis e algumas posições à frente de Gabashvili no ranking mundial: Dmitry Tursunov e Igor Kunitsyn. O primeiro marcou ponto nas duplas na final de 2006 e sacramentou a vitória sobre o Brasil no ano passado, no quinto jogo.

 A pouca experiência aliada à falta de vontade de viajar ao Brasil para jogar no saibro (enquanto as duplas rolavam, no sábado, Tursunov comemorava vaga na final do Challenger de Istambul, em quadra dura) tiraram a Rússia do Grupo Mundial após 20(!) anos. O preço que se paga às vezes é alto demais.

Na reta
Mas nem só de Davis vive o tênis (e, principalmente, quem não é top 100). O Challenger de Cali viu três brasileiros na semifinal, com Thiago Alves eliminando Fabiano de Paula (que entra pela primeira vez na carreira no grupo dos 300 do mundo) e caindo para Feijão na final. Alves confirma o bom recomeço que teve início com o título do Aberto de São Paulo, na primeira semana do ano, e já ganhou mais de 200 posições na temporada. Feijão, que há exatamente um ano atingia sua melhor colocação no ranking (84º), mostra que pode salvar a temporada de aprendizado em ATPs recuperando pontos preciosos em Challengers. Com muita coisa a acontecer até o próximo confronto da Davis, em 2013, os dois não podem ser descartados como opções para João Zwetsch. Principalmente Alves em quadra dura.

André Sá foi vice no Challenger de Petange, com o britânico Jamie Murray. No feminino, a número 1 brasileira, Teliana Pereira, fez sua quarta final na temporada e ficou com o vice no ITF US$ 25 mil de Mont-De-Marsan. A ex-top 20 juvenil Laura Pigossi conquistou seu primeiro título como profissional, no ITF US$ 10 mil de São José dos Campos. Ela eliminou duas cabeças de chave em sets diretos e, na final, mesmo sofrendo um pneu da experiente Maria Fernanda Alves – cabeça 1 –, levou a melhor com 7/5 no terceiro set. Uma das promessas do tênis brasileiro começa a dar os primeiros passos no profissional.

Caixa de brita
Nem só de Brasil vive a Davis. Nos outros 9 confrontos relevantes do final de semana, apenas a Bélgica definiu o confronto no sábado e não permitiu que a Suécia, órfã de Robin Soderling, evitasse o inevitável. Sem tenistas entre os 400(!!) do mundo, os suecos ressuscitaram Andreas Vinciguerra, 33º do mundo em 2001 e que não jogava desde julho de 2011, que até conseguiu tirar 12 games de David Goffin, mas a equipe deixa a elite da competição após 12 anos. Para 2013, a Suécia espera a volta de Joachim Johansson, Magnus Norman, Thomas Enqvist e Bjorn Borg em busca do acesso.


No Grupo Mundial, a Espanha tomou sustos no primeiro dia, com Sam Querrey abrindo 1 set a 0 contra David Ferrer e Nicolas Almagro precisando de 4h16 contra John Isner. Ainda com a dupla baleada, o favoritismo dos irmãos Bryan foi confirmado, mas Ferrer colocou fim à Davis dos sonhos de Isner, em 4 sets, e colocou os atuais campeões em mais uma final.

Em Buenos Aires, o primeiro dia se mostrou decisivo após Juan Martin Del Potro não ter condições de jogo para o domingo. Juan Monaco poderia ter aberto 2 a 0 no confronto, chegou a 4 a 2 no quarto set contra Tomas Berdych e perdeu oito(!!!) games seguidos. Ainda devolveu as duas quebras no set decisivo e, quando foi sacar em 4/5, perdeu o serviço de zero, frustrando a sensacional torcida no Parque Roca.

Mesmo sem as inúmeras opções que Alex Corretja tem para convocar a Espanha, a República Tcheca jogará em casa para tentar devolver a surra da decisão de 2009 e conquistar o título inédito pós-Tchecoslováquia.

Roger Federer e Stanislas Wawrinka foram encarregados de evitar o rebaixamento da Suíça e fizeram 2 a 0 com facilidade na sexta-feira contra a Holanda. A dupla repetiu as Olimpíadas de Londres e o número 1 do mundo deve ter adorado tem que voltar à quadra no domingo para confirmar o terceiro ponto.

A Alemanha teve o saibro como grande aliado contra a Austrália. O jovem Cedrik-Marcel Stebe abriu o confronto perdendo para o também jovem Bernard Tomic e a dupla Lleyton Hewitt / Chris Guccione colocou os australianos em vantagem. No último dia, porém, os visitantes não conseguiram um set, com Tomic derrotado por Florian Mayer e Stebe frustrando o recorde de confrontos de Hewitt pela Austrália. 

Os cazaque-russos viraram contra o Uzbequistão e têm menção honrosa somente porque podem ser adversários do Brasil. Aliás, o melhor sorteio no retorno ao Grupo Mundial seria receber cazaques ou austríacos (a confirmar no ranking de amanhã qual dessas equipes será cabeça de chave).

Japão 2 X 3 Israel, Canadá 4 X 1 África do Sul e Itália 4 X 1 Chile não merecem mais linhas.

Depois da curva
Menção honrosa do final de semana à Índia, que ganhou seu primeiro confronto desde a fatídica vitória sobre o Brasil em 2010. Depois de perderem para Sérvia e Japão em 2011 e caírem para o grupo 1 da Ásia / Oceania, haviam perdido para o Uzbequistão em abril e corriam risco de rebaixamento para o Grupo 2. Venceram a fortíssima Nova Zelândia por 5 a 0.

Fotos: Site Copa Davis

1 de setembro de 2012

Escalada sem fim


É um roteiro sem fim. Uma biografia que merece atualização a cada semana. O câncer, depois a volta à vida e ao ciclismo. As sete conquistas seguidas da prova mais dura do planeta, o romance com uma celebridade, a arrecadação de fundos para ajudar pacientes da doença a qual sobreviveu. Milhares de acusações, centenas de testes antidoping, dezenas de declarações para tirar o final feliz do conto de fadas. Dos adversários, dos ex-companheiros de equipe e talvez até da ex-noiva-celebridade.

A história tem muitas reviravoltas para tentar ser entendida, quanto mais explicada. E os capítulos das 2 últimas semanas indicam que a novela pode acabar amanhã ou nunca ter fim. Talvez não seja a montanha mais difícil, mas com certeza é a mais longa da (ex-?) carreira de Lance Armstrong.

A retirada de todos os títulos como profissional desde agosto de 1998 e o banimento do esporte profissional pelo resto da vida, anunciado pela Usada, traz duas hipóteses opostas de imediato. Ou Armstrong sempre competiu dopado e havia um acordo com a Usada para encobri-lo (semelhante com o que a ATP fez com Andre Agassi uma vez – pelo menos a única divulgada pelo próprio ex-tenista). Por algum motivo, esse acordo chegou ao fim e o estrago foi feito. Ou Armstrong sempre correu limpo e é realmente vítima da “caça às bruxas” que alega – agora não só da Usada, como de muitos ex-companheiros. Os testes, à época, foram todos negativos, enquanto dezenas de adversários eram advertidos ou punidos pelo uso de EPO, esteroides, transfusões de sangue, etc. O ciclismo está cheio de exemplos.

Uma questão posterior é: Por que o poder da Usada é superior ao da União Internacional de Ciclismo (UCI)? A entidade máxima do ciclismo mundial não deu um veredicto sobre a punição e cobra da Usada que mostre as evidências dos exames em que Armstrong falhou. Aguardemos.

Coincidentemente, havia terminado de ler Lance Armstrong: Muito mais do que um ciclista campeão; minha jornada de volta à vida um dia antes da desistência do americano em continuar se defendendo. E relacionei sua atitude com a cabeçada de Zidane ao final da carreira. Se querem acreditar ou não, certo ou errado, culpado ou inocente, foda-se.

Floyd Landis, Tyler Hamilton e Lance Armstrong
Coincidentemente (ou não), um ex-companheiro de Armstrong lançaria uma autobiografia-bomba no dia do aniversário do heptacampeão (?), 18 de setembro, e adiantou para o próximo dia 5. Tyler Hamilton ajudou Armstrong a conquistar os 3 primeiros títulos no Tour com a US Postal Service e depois virou seu adversário pelas equipes CSC e Phonak. Admitiu seu próprio doping  - assim como acusou Armstrong e inúmeros ex-companheiros – em uma entrevista no final de 2011 e no início de agosto teve a medalha de ouro dos Jogos e Atenas-2004 retirada pelo COI. No livro A luta de Lance Armstrong, do jornalista Daniel Coyle (coincidência ou não, o mesmo que assina a biografia de Hamilton), os dois são apresentados como amigos, apesar de rivais, e apenas um teto separava suas apartamentos em Girona durante os longos treinamentos na Europa.

No livro-bomba (“The Secret Race: Inside the Hidden World of the Tour de France, Doping, Cover-ups and Winning at All Costs”), Hamilton revela transfusões de sangue que fez junto de Armstrong no Tour de 1999 e diz que “Lance trabalhava o sitema… Lance era o sistema”, segundo cópia que a Associated Press conseguiu antecipadamente. Ele ainda dá detalhes do esquema de EPO, que os líderes e os médicos da equipe (US Postal Service) encorajavam a prática. Marketing ou não, é uma boa estratégia de divulgação.

Como se não bastasse, o Daily Mail ressuscita que até sua ex-noiva, a cantora Sheryl Crow, foi interrogada em 2011 a respeito das acusações. Os dois conviveram entre 2003 e 2006, quando o ciclista foi menos esportista e mais celebridade. Nunca se soube o teor de suas declarações.

Continuando, Outside traz um texto de um ex-assistente de Armstrong, dizendo acreditar que o ciclista trapaceou, não é e nunca foi uma vítima – além de explorar a tão falada e (re) conhecida arrogância do ex-campeão.

Enquanto os próximos capítulos não chegam, Armstrong ironiza a decisão da Usada. Seu agente, Bill Stapleton, evita comentar o(s) caso(s). O veterano belga Eddy Merckx, um dos maiores ciclistas de todos os tempos e 5 vezes campeão do Tour,lamenta a polêmica e diz que acredita em Armstrong – em sua biografia de 2000, o norte-americano o descreve como um grande amigo. Os norte-americanos George Hincapie e Levi Leipheimer, dois dos maiores escudeiros de Armstrong ao longo de sua carreira, teriam garantido, no início de julho, que testemunhariam à Usada contra o compatriota. Alberto Contador, em meio à Vuelta a Espanha em seu retorno de suspensão por doping, trata de ser político e ficar de meias-palavras. Oscar Pereiro, que herdou o Tour de 2006 após a desclassificação de Floyd Landis (ex-companheiro de Armstrong) por doping, diz que o caso é patético e lança dúvidas sobre o sistema de antidoping.

Depois da curva
A maioria dos grandes adversários de Armstrong ao longo da carreira foi pega em exames antidoping e muitos – vice ou bronze no Tour, ouro em Jogos Olímpicos – tiveram as devidas punições. Se todos estavam trapaceando, entre todos os dopados, Armstrong ainda foi o melhor. É como diz o poeta: seria cômico se não fosse trágico.

Na reta
Quando interrompeu a aposentadoria para retornar ao ciclismo em 2009, a principal justificativa de Armstrong fora que o esporte havia perdido espaço na mídia sido manchado por casos de doping, como o de Landis, em 2006. Se até hoje o principal assunto ciclístico ainda é o norte-americano, ele ajuda em evidência nas notícias com a polêmica. Mas, ao desistir de se defender, coloca um fim nas pautas do esporte que o consagrou (caso essa montanha de história tenha algum fim).

12 de agosto de 2012

O que aprendi nestes Jogos Olímpicos


Que o melhor jeito de chamar a atenção em uma cerimônia de abertura ou de premiação é usar galocha.


Que acabaram com o koka no judô.

Que três TVs ligadas simultaneamente durante 10 horas por dia fazem com que as narrações possam ser ouvidas enquanto se está na rua, no ônibus ou tentando dormir.

Que se pode entregar um jogo e ainda assim não ser campeão.


Que se pode não entregar um jogo e também (ou, por isso) não ser campeão.


Que as provas do atletismo são muito interessantes para precisarem competir pela atenção / transmissão simultaneamente.


Que o atletismo não teria graça se as provas não fossem disputadas simultaneamente.

Que se pode oferecer um refrigerante com emoção.

Que ser brazuca é tá na moral.


Que se não fossem as músicas, as cerimônias de abertura e de encerramento teriam 15 minutos em Londres.

1 de agosto de 2012

Um mês de história para um mito


Bradley Wiggins se tornou nesta quarta-feira um mito do esporte. Para os britânicos, nem a categoria de mito é suficiente. Foi para a classificação hors concours. Durante pouco mais de um mês, tudo conspirou para que o ciclista de 32 anos passasse a limpo toda a história que já havia escrito na vitoriosa carreira. Um mês, em imagens.

29/06: Às vésperas do Tour de France e com as ausências de Alberto Contador e
Andy Schleck, a imprensa britânica se perguntava esperançosa (crédito: Guardian)
30/06: Tour de France começa com prólogo de 6,4 km. Wiggins fica em 2º, 7s atrás do líder e tetracampeão mundial em contrarrelógio de estrada, o suíço Fabian Cancellara. Como vice-líder, “herda” a camiseta verde
07/07: Na primeira etapa com grandes escaladas, fica em 3º e assume a
liderança do Tour, vestindo a camiseta amarela
19/07: Depois da última etapa de montanha e a 3 dias do final do Tour, Wiggins tem 2min05s de vantagem para o 2º colocado, seu companheiro de equipe Christopher Froome. Modesto, declara: “Eu posso começar a pensar em vitória”.
22/07: Na 99ª edição da prova mais tradicional do ciclismo mundial, faz história
ao se tornar o primeiro britânico a vencer o Tour de France



Imprensa britânica se curva ao campeão (créditos: BBC e Telegraph - 3x)
Entre o Tour e as Olimpíadas, pausa para dois momentos família. Na última etapa da prova francesa, pedalando ao lado do filho e...
... dois dias depois, divulgando pelo Twitter a foto "garoto 'cutucando' o nariz cercado por leões". Os bichos de pelúcia são ganhos pelo líder do Tour de France a cada etapa que conseguir manter a liderança. Neste ano, foram 14 presentes para o filho
27/08: Com todas as atenções voltadas para o compatriota e companheiro de equipe na Sky Procycling para a prova de estrada do primeiro dia de Olimpíadas, Wiggins declara que é hora de retribuir a ajuda que teve da equipe durante o Tour. Na cerimônia de abertura dos Jogos de Londres...
... Wiggins é o primeiro atleta a aparecer, mais uma vez de amarelo. Ele toca o sino para "oficializar" o início da cerimônia e minutos depois comemora a "façanha" no Twitter como um menino ao ganhar uma bicicleta
28/08: Dono de 6 medalhas olímpicas, Wiggins é o coadjuvante da vez diante do favoritismo de Cavendish na abertura das Olimpíadas, que termina em frustração para a torcida sem o ouro ganho às vésperas
31/08: Após quatro dias de Jogos, imprensa britânica começa a cobrar resultados, ainda sem medalhas de ouro (créditos: BBC e Telegraph)
01/08: Antes da prova contrarrelógio, a imprensa volta a perguntar (crédito: BBC)
01/08: 4min39s54 depois, Wiggins responde...
... empurrado por milhares de britânicos ao longo de 44 km
01/08: Sua Majestade é o primeiro ciclista da história a ganhar o Tour de France e, no mesmo ano, conquistar um ouro olímpico
01/08: Na prova, superou o atual campeão mundial de contrarrelógio, o alemão Tony Martin (42s depois), e o companheiro Froome, bronze (1min08s), e o campeão olímpico de Pequim-08, Fabian Cancellara (7º colocado), que correu no sacrifício após sofrer queda na prova de estrada no sábado

01/08: Wiggins passa a ser o britânico com mais medalhas na história dos Jogos Olímpicos, ultrapassando Steve Redgrave, do remo, que na cerimônia era cotado para acender a pira olímpica. São 7 medalhas e a de hoje é a primeira fora de um velódromo (Sydney-00: Bronze em perseguição por equipe; Atenas-04: Ouro em perseguição individual, prata em perseguição por equipe e bronze em madison; Pequim-08: Ouro em perseguição individual e ouro em perseguição em equipe)
01/08: "Hoje tinha que ser ouro ou nada. Qual o sentido de sete medalhas se elas não fossem da cor certa. É tudo sobre as 4 de ouro. Agora tenho que ir para o Rio buscar a quinta". Aguardamos as costeletas


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No site oficial das Olimpíadas, Bradley Wiggins vale por dois. Hoje, é impossível calcular seu valor para o povo britânico

30 de julho de 2012

Jogando na sombra


Um cara vem andando em sua direção. A velha sensação de “já vi essa pessoa”. Você disfarça, vira pro lado e volta a olhar. Ah, ele joga basquete. Ou jogava? Não é muito novo. Mas é o basquete, parecido com o jornalismo. Os profissionais não se aposentam. Pra conviver com a dúvida por muito tempo. Devia ter feito outra coisa. Se for pra fazer plantão, que seja médico. Se for pra jogar, que seja futebol.

Faz tempo que ele joga. Muito tempo. É, ainda está jogando. Não tem como parar. E há uns 12 anos já era veterano. Lembro que jogava no Rio. Esse cara mesmo, certeza. Ano passado estava em Franca. Cheguei a ver um jogo no ginásio, ele quase parecia novo perto dos outros do time. Mas, se em uma tarde durante a semana está aqui, não está mais lá. Óbvio.

Tem um time que é logo ali na frente, uns 5 quarteirões. Deve estar fazendo tratamento médico, se recuperando de lesão. Nossa, com tanto tempo ainda não desiste. Ou foi contratado e está indo treinar. Mas não está usando um tênis próprio de basquete. Não vai chegar em um carrão? Não está bêbado, virado da noite anterior? Não, treino não é.

Se bem que tem uma mochila, o tênis pode estar lá dentro. Não deve querer gastar na rua, só na quadra, com o piso adequado. O patrocinador devia dar mais pares, mandar testar e analisar as pisadas durante um ano e desenvolver o melhor equipamento, de acordo com cada atleta. Ele é um veterano, pô! Já usam até pele de ornitorrinco pra essas coisas. Não, ele só deve querer treinar e jogar, é o bastante.

Então, pra confirmar, vou perguntar se ele é o novo reforço do time. Mas ninguém está parando ele no meio da rua. Vai ver não querem ser inconvenientes. Também não vou ser. Caras assim não devem gostar de tietagem. Ou gostaria de saber que alguém o reconheceu, que acompanha o seu trabalho? Um dia descubro. Ele está indo trabalhar, imagino que queira chegar na hora.

Sobre as outras coisas, meros detalhes, dá pra descobrir chegando em casa. Clube + nome do jogador + posição que joga deve ser suficiente pra confirmar. Pronto, foi anunciado há umas três semanas pra compor o elenco. Está com 36 anos. Sabia que não era muito novo. Pode se dar bem indo pra um time que chegou a 4 semifinais na última temporada e conquistou 1 título. E deve estar treinando sério pra mostrar disposição. Não como muitos profissionais da áreas com especializações diferentes.

Ah, se não fosse do basquete. Poderia estar em um time de uma quinta divisão estadual, fora dos grandes centros. Se alguém inventasse uma negociação, estaria no primeiro destaque de jornais, revistas, sites, rádios. A famosa “especulação”. Não precisa ser pra um time tradicional. Pode ser de uma terceira divisão estadual, é a “notícia” “boa de vender”. Enquanto não se vende, continua no mercado. Há 36 anos. E se...

Depois da curva
Saiu um formato de texto-clichê que tá na moda, né? O leitor acredita que foi assim mesmo que aconteceu e o autor não parece autor. Parece um cara batendo papo no boteco, contando uma história. É fácil imaginar que se está lendo um pensamento. Mas ainda prefiro pensar que está na moda porque é uma das poucas maneiras que o leitor tem conseguido entender um texto, com frases de 5 palavras, sem que ele precise voltar ao início de uma oração quando chegar ao seu final, como acontece com esta.

Mas, e se foi assim que aconteceu?

28 de julho de 2012

3488 + 23 + 89 + 1 + 38 = 250 + 6 + OURO


O primeiro dia oficial de Olimpíadas já foi suficiente para as histórias de medalhistas (e por que não não-medalhistas?) conseguirem encher um jornal nacional inteiro. Mas isso não vai para os records. Ou então daria para encher de posts que não seriam lidos. Prefiro ficar com apenas um.

Conquistas olímpicas podem ficar marcadas por muita coisa. A última competição profissional de um atleta. O nascimento de um mito em potencial. A surpresa aos olhos do mundo. O único título que faltava. Um recorde inimaginável. O triunfo inédito em uma modalidade para determinado país. A euforia do país-sede. A frustração do país-sede. Em época de Phelps, Federer, Bolt, Isinbayeva e alguns poucos outros, as vitórias de outros muitos podem ser banalizadas ou subvalorizadas. Escolho a curva por fora.

Alexander Vinokourov reúne alguns desses aspectos que marcam as conquistas. Não é ídolo mundial. Não é o bom moço. Não tem contratos milionários. É um cara que precisa de apresentação. “Surgiu” para o ciclismo em 2000, com uma medalha de prata nos Jogos de Atlanta. Ao longo da carreira, o ciclista do Cazaquistão venceu provas curtas, como a Liege-Bastogne-Liege e a Amstel Gold Race (2 vezes), médias, como a Paris-Nice (2 vezes, em uma delas, sofreu com a morte de um companheiro de equipe durante a prova e subiu ao pódio exibindo sua foto), e longas, como a Vuelta a Espanha, em 2006. Em meados da última década, seu “auge” teve vitórias em quatro etapas do Tour de France, incluindo uma controversa chegada no Champs-Élysées em 2005.

Por algumas edições da mais tradicional prova ciclística do mundo, foi credenciado como um dos prováveis caras que superariam Lance Armstrong, assim como o foram Ivan Basso, Jan Ullrich e Iban Mayo. Chegou à 3ª posição em 2003 e à 5ª em 2005. Muitas vezes era visto mais como adversário do que como companheiro de equipe de Ullrich e Andreas Kloden na T-Mobile, em seus últimos anos na equipe. Por acreditar que poderia superar Armstrong sozinho e que não deveria estar à sombra dos alemães, comprometia o trabalho da equipe, que poderia até ver dois ciclistas no pódio do Tour, mas nunca na posição mais alta. (O norte-americano George Hincapie deve discordar de sua postura. Recordista em participações no Tour, com 17 aparições, sabia o papel – de coadjuvante – que tinha dentro de sua equipe, mas levou seus capitães a 9 conquistas – 7 com Armstrong, 1 com Alberto Contador e 1 com Cadel Evans).

Há um ano, carregado e com o fêmur quebrado
Em 2006, às vésperas do Tour, sua nova equipe, a Astana, teve cinco ciclistas pegos no exame antidoping e ficou sem o mínimo de inscritos para a prova. Em 2007, Vinokourov abandonou no meio da competição após ser pego em exame antidoping e chegou a dizer que iria se aposentar. Voltou depois de 2 anos de suspensão e, em 2011, rolou em uma curva e teve o fêmur fraturado (vídeo da confusão). Precisou abandonar novamente o Tour e anunciou aposentadoria, aos 37 anos. Mais uma vez, voltou da aposentadoria. Foi coadjuvante no Tour de 2012, mas completou – em 31º, há 1 semana.
Há uma semana, montado

Sim, 3488 km percorridos em 23 dias. Quase 89 horas pedalando. Com 38 anos. Uma semana depois, meros 250 km em uma certa competição que atende pelo nome de Olimpíadas. Em Londres. Todos os holofotes no ídolo Mark Cavendish, sprintista dono de 23(!) etapas do Tour de France, no baixo de seus 27 anos.

Apesar de ser mais longa, em km, do que qualquer etapa do Tour, a prova de estrada que abriu as Olimpíadas na manhã deste sábado trazia muitas semelhanças, o que reforçava o favoritismo de Cavendish – além de toda expectativa pelo primeiro ouro britânico em casa. E se não fosse o britânico, quem seria? Outro sprintista, é claro. Como o eslovaco Peter Sagan e o alemão Andre Greipel, campeão e vice na categoria no Tour, há uma semana. Com 22 e 30 anos, respectivamente.

A típica prova que só sprintistas poderiam ganhar. Longa, mas que o pelotão percorreria em ritmo de passeio. Só no final, aqueles que descansaram (a maioria) e com características de velocidade para a chegada (minoria) estariam no pódio. E, uma semana depois de completar a disputa esportiva conhecida como a mais exigente fisicamente do mundo, o vovô Vino estava pronto para atacar o pelotão antes que ele o atacasse, nos quilômetros finais. Surpreendentemente, ele e o colombiano Rigoberto Uran Uran não foram alcançados. Entre os 38 anos do cazaque e os 25 do colombiano, a experiência levou.

Com o ouro em mãos, Vinokourov disse que terminou o Tour de France um pouco cansado, mas eram as Olimpíadas, ele precisava ir. Não precisava dizer mais nada. Mas concluiu: “Eu encerro minha carreira com essa vitória”. Ele ainda disputa o time trial quarta-feira. Se dessa vez a aposentadoria vai ser verdadeira, veremos. Se o clichê de que “o atleta morre a primeira vez quando se aposenta profissionalmente do esporte” pode ser usado, Vinokourov tem algumas vidas. E também vale o clichê de que ele “vai em paz”.
Hoje, com 38 anos, mordendo
Depois da curva
Ainda entre os vovôs, menção honrosa ao australiano Stuart O’Grady, 38 anos. Completou o Tour de France em quase 90 horas e meia e terminou na 6ª posição em Londres. E tem modalidade que precisa acontecer fora do “período olímpico” pra dar tempo de descanso...

Derrapada
O risco de escrever sobre ciclismo é daqui um tempo aparecer doping pra algum(ns) dos vencedores. Se for o caso, ah, sei lá.

Na reta
3488 km percorridos em 23 dias, por quase 89h pedalando + 1 semana de descanso + 38 anos de idade = 250 km percorridos em quase 6 horas pelo ouro olímpico. Resolvendo a matemática, o valor da medalha é razoavelmente alto.