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8 de março de 2016

Sharapova, doping e versões

Maria Sharapova é a mulher que mais fatura no esporte, seja exclusivamente com patrocínios ou na soma de patrocínios com os rendimentos como atleta. O levantamento numérico feito anualmente pela revista Forbes é um bom ponto de partida para imaginar o que geraria o anúncio feito pela russa nesta segunda-feira. Um doping no final de janeiro, para uma substância (meldonium) proibida pela Wada desde janeiro, da qual Sharapova faz uso desde 2006 e havia sido avisada de sua proibição pela agência em dezembro, de acordo com a tenista.

Como esperado, os teclados enlouqueceram subitamente. O imediatismo não poupa ninguém e, por vezes, o principal fica fora do resumo, como diz o poeta. Coletivas em Indian Wells serão um prato cheio. Sharapoxinhas e Sharapotralhas poderão chegar às vias de fato no domingo.

Fui dormir pensando como um atleta poderia tirar proveito de uma substância que estava disponível, legalmente, para todos os seus adversários. (Foi isso que aconteceu até 2015; Foi isso que li vindo de um especialista). Acordei com uma carreira jogada no lixo. Ou em dúvida. No título, entretanto, é recomendável que se jogue (no lixo, pra torcida, para cliques, etc).

Podemos (?) escolher em que versão acreditar, que fonte escolher ou não escolher nenhuma. A original foi transmitida ao vivo e está no Youtube, não parece algo secreto. “Sharapova é pega em exame antidoping: ‘Foi um grande erro’” não contém nenhuma informação errada. Mas... ah, deu pra entender.

O tapete era feio mesmo?
Hipóteses
1. “A versão de Sharapova é verídica”. Deixar de checar a lista da Wada é um erro imperdoável, ridículo, amador, etc. Não faz parte, porém, das obrigações de um atleta de ponta. Assumir a culpa no lugar de sua equipe (“family doctor”) foi, senão sincero, muito bem calculado por aqueles que cuidam da sua imagem. O apelo pode gerar punição de menos de um ano, como o tênis já teve recentemente.

2. “Sharapova soube, em algum ano entre 2005 e 2015, que meldonium melhorava o rendimento, continuou tomando e ninguém checou a lista”. Se o cidadão honesto está preocupado também em parecer honesto, o desonesto está ainda mais. Por isso, invariavelmente ficaria atento à lista divulgada anualmente pela Wada, para saber qual seria o limite de, ilegalmente, estar na legalidade. Presidentes de Casas em Brasília talvez saibam a respeito...

3. “Sharapova soube, em algum ano entre 2005 e 2015, que meldonium melhorava o rendimento e continuou tomando mesmo após checar a lista”. Nesse caso, a aposta seria a de que passaria ilesa por ter nome no esporte.

4. “Sharapova viu a lista e parou de tomar a substância em dezembro”. Na resposta da última pergunta na coletiva, a russa diz que continuou tomando, porque fazia bem para sua saúde. A quem duvidar da resposta, essa possibilidade depende do tempo que a substância demora para sair do organismo. Ainda que fosse o caso, ela estivesse seguindo as regras durante o Australian Open e só tenha optado por criar outra versão nesta segunda-feira, um aviso prévio à WTA/ITF/Wada explicando sua situação resolveria. A menos que achasse que nada aconteceria.

5. “Sharapova e sua equipe são profissionais do doping”. Seriam profissionais incompetentes, é claro. Primeiro, porque, voltando à hipótese 2, deveriam estar atentos a qualquer atualização da Wada. Segundo, foram pegos muito facilmente. Além disso, o doping gerou os efeitos desejados? Sharapova tem muitas conquistas no circuito, mas, na mesma época, fica longe dos 157 títulos de Grand Slam de Serena Williams, sofre 47 a 1 no H2H com a rival e suas passagens pela liderança do ranking foram mais rápidas que jogos de primeira rodada em GS.

Mais algumas?

Depois da curva
Se o anúncio de Sharapova foi inesperado, não menos surpreendente foi a notícia de que a Nike suspendeu o patrocínio até o final do julgamento do caso. A mesma empresa que fora uma das últimas a abandonar o barco no naufrágio de Lance Armstrong, em 2012, quando delações premiadas de ex-companheiros surgiam sucessivamente, como num contrarrelógio, e a Usada já indicava que não haveria sobreviventes.

A impressão era a de que, enquanto não houvesse uma confissão na Oprah, as investigações não procediam. Houve uma confissão de Sharapova, martelo batido. Ou neste caso a empresa, de fato, se sentiu traída e naquele era cúmplice e fez de tudo para que coubesse também no bote salva-vidas... Quem sabe? Quem soube?

Depois de outra curva
Interessante notar que Sharapova levou um papel para a coletiva e raramente o consultou. Pareceu um apoio para a transição de um assunto a outro e para que não deixasse algo passar. Quando começava uma explicação, não olhava para baixo para checar datas e nomes. Como na apresentação de seminários na universidade, ensaiou muito bem ou realmente tinha ciência do que estava falando.

23 de maio de 2015

A justiça da chave de Roland Garros e a busca por zebras

A possibilidade de tapetão não foi confirmada e Roland Garros mostrou que é várzea, mas não tanto. O sorteio que definiu o sérvio Novak Djokovic e o espanhol Rafael Nadal como prováveis adversários logo nas quartas de final pode não ter tido a ilusória justiça divina ou tenística. A justiça matemática, porém, esteve presente em alguns casos.

10 pontos separam o tcheco Tomas Berdych do japonês Kei Nishikori, 4º e 5º no ranking, respectivamente. Se a diferença fosse do 5º para o 6º ou do 6º para o 7º, nada de mais. Os míseros 10 pontos poderiam ter dado ao japonês uma sequência de Djokovic-Andy Murray-Roger Federer. A justiça matemática tratou de colocar Nishikori e Berdych no mesmo quadrante. E o Nadal que se vire com a outra turma.

Outra conta corrigida foi a do norte-americano John Isner, que de 17º virou cabeça 16 com a desistência do canadense Milos Raonic. Pois o adversário da 3ª rodada pode ser logo quem vem imediatamente atrás dele, o belga David Goffin, cabeça 17. O “beneficiado” para subir de cabeça 25 para 24 foi o letão Ernests Gulbis. Os números tratam de deixar “elas por elas”. E entre Djokovic e Nadal? Se havia uma possibilidade, é justo que não fôssemos privados desse encontro antecipadamente. Ou não? Não se sabe quando a chance vai aparecer de novo.


Cadê as zebras?
O momento dos “grandes” é propício a zebras. Nesse aspecto o sorteio foi frustrante. Não há apostas seguras para surpresas para os favoritos nas primeiras rodadas. Mas a esperança é a única que morre, dizia o poeta.

A fase de Nadal é de um mortal e proporciona chances. O histórico em Paris e os jogos em melhor de 5 sets sempre vão dizer o contrário. A gira europeia passou longe do padrão Nadal e o tempo pra pegar no tranco pode não ser suficiente, já que Djokovic esperaria logo nas quartas. Em 2009, Robin Soderling aconteceu nas oitavas. Nos últimos anos, os testes foram nas rodadas iniciais (Isner em 5 sets em 2011 e Daniel Brands e Martin Klizan de virada, em 4 sets, em 2013). Os encontros com o sérvio ficam à parte.

(Quem sabe o Bolsa Nadal de jovens atletas não será resgatado para contemplar o convidado local Quentin Halys, 18 anos, vice no US Open e semi em RG e AusOpen no juvenil em 2014? Nááá).

Federer ganhou o último Grand Slam em Wimbledon-2012. Depois disso, a “seca” é de 10 torneios. No período teve derrotas para top 10 como Djokovic, Nadal, Murray, Berdych e Tsonga. A outra metade veio para nomes como Marin Cilic, Ernests Gulbis, Tommy Robredo, Andreas Seppi e Sergiy Stakhovsky. As famosas “vitórias ainda no vestiário” estão menos frequentes e as atuações de gênio mais raras. No saibro, Monte Carlo foi rápido, em Istambul ganhou jogando mal ou complicando jogos tranquilos, em Madri foi um circo e em Roma teve lá os seus dias – mesmo q não tenha precisado jogar com Wawrinka e não tenha encontrado soluções para Djokovic. A boa notícia – para ele – é que mesmo sem as exibições de gala ainda consegue ganhar da maioria do circuito. A boa notícia – pra quem gosta de ver a chave aos pedaços – é que cada rodada tem se apresentado como uma oportunidade nos últimos tempos.


Primeira rodada
Já que a primeira rodada não tem o popular blockbuster (o duelo argentino Juan Monaco X Federico Delbonis pinta como o mais interessante), restam aqueles jogos em que o favorito não é tããão favorito. Destaque para americanos.

Jack Sock ficou devendo na Europa. Grigor Dimitrov está devendo no ano – mas dele se espera bem mais do que de Sock, é claro. Se o dia permitir...

Sam Querrey X Borna Coric. A grife do croata se aproxima à de Nick Kyrgios no aspecto “ganhar de gente grande”, enquanto outros nomes novos até já levantaram troféus, mas ainda não causaram tanto impacto – Dominic Thiem e Jiri Vesely, por exemplo. O croata, porém, ainda não fez nada em GS e no último jogo em 5 sets não aguentou no físico, no mental, na responsabilidade e em nada, perdendo um 2 a 0 contra Viktor Troicki na Copa Davis.


John Isner (16) X Andreas Seppi. Pode ir longe ou acabar com uma desistência. Ou não. Momentos muito diferentes. Isner esboça uma caminhada de volta ao top 10 com as boas campanhas no saibro e quase nada para defender no segundo semestre, exceto pelo título em Atlanta. Seppi fez um jogo na terra batida (Monte Carlo). A temporada que parecia promissora pós-Australian Open e vice em Zagreb desmoronou para o italiano depois da Davis no Cazaquistão e de problemas no quadril.

Bernard Tomic (27) X Luca Vanni (Q). Será? Em Madri foi. Pode não mudar a chave tranquila de Djokovic para a 3ª rodada, mas traria uma diversão.

Nicolas Almagro X Alexandr Dolgopolov. Vai saber.

Leonardo Mayer (23) X Jiri Vesely. Promessa de bom, jogo se os dois jogarem.

Diego Schwartzman X Andreas Haider-Maurer não tem nada de mais, mas os dois estão no melhor ano da vida.

Perseguições pessoais, vulgo “não confio nesses favoritos”: Marin Cilic (9) X Robin Haase; Nick Kyrgios (29) X Denis Istomin.


Espanhóis Roberto Bautista Agut (19) e Fernando Verdasco (32) podem ressuscitar e lançar, respectivamente, o alemão Florian Mayer e o japonês Taro Daniel. Assim como o eslovaco Martin Klizan com o moleque Frances Tiafoe, que é mais falado que Coric/Chung/Kokkinakis/Zverev/Rublev/Nishioka/etc por causa do fator americano.

Encerrando, qualquer um que não seja novato em Thomaz Bellucci não se surpreenderia se depois do título em Genebra viesse um revés na estreia. Já vimos a encruzilhada “confiança / ritmo X cansaço / adaptação em semanas consecutivas. Fora o fator 5 sets, mas nisso Marinko Matosevic tem pós-doutorado (3-16). Esperamos que o jogo com Nishikori na 2ª rodada se confirme.

Depois da curva
Se os cabeças de chave confirmarem, os jogos mais interessantes devem estar na parte inferior na terceira rodada: Berdych X Fognini; Wawrinka X Garcia-Lopez (repetição da estreia em 2014 e das oitavas de Melbourne-2015); Monfils X Cuevas; Tsonga X Kohlschreiber. Na parte superior, Murray X Kyrgios e Isner X Goffin valeriam pelos estilos diferentes.

Fotos: Roland Garros.

20 de abril de 2015

Mais Shvedova, menos Bouchard

Um fim de semana histórico para o tênis brasileiro, ninguém pára Novak Djokovic, Serena Williams tomou um pneu (nas duplas), Martina Hingis perdeu um jogo ganho (em simples), República Tcheca continua brincando e a Alemanha entregou na Fed Cup. A primeira semana (que importa) no saibro e um pouco do resto.


ATP
Se fosse Fórmula 1, a cartolagem já estaria pensando em aumentar a pontuação do vice ou dobrar a pontuação do ATP Finals ou criar chuva no meio do jogo porque a disputa está chata (em algum ponto de vista...). A versão atualizada do Djokovic-2011 tem uma particularidade: há quatro anos, o sérvio fez tudo aquilo pra chegar ao número 1. Em 2015, se as atuações não são tão espetaculares, ainda ganha de todo mundo – talvez justamente pela confiança de já ser o número 1.

Em 2011, Djokovic tinha 2 derrotas na temporada quando foi campeão do US Open. Em setembro! Mesmo na atual fase, é inimaginável que isso se repita em 2015, porque “já” tem duas derrotas. O detalhe é que uma delas foi exigindo o melhor jogo do ano do... número 2. O vice-líder tem que estar no limite, nas condições ideais, fechar todas as portas, etc, etc, pra arrancar uma vitória. Uma distância que o ranking desta segunda-feira também mostra: 5460 pontos! Exemplificando, Roger Federer poderia ganhar Madri, Roma, Roland Garros E Wimbledon e pra virar nº 1 ainda precisaria torcer contra o sérvio.


No Masters 1000 de Monte Carlo, foram três passeios até a semifinal. Na surra das quartas de final parecia que o croata Marin Cilic – lesão, retorno e saibro à parte – era um mero 50º do mundo, não o 10º. Rafael Nadal chegou capengando, mas, se não no placar, ao menos no jogo exigiu bastante e, como diria o poeta, “vendeu caro a derrota”. De novidade, o uso mais frequente de drop shots, de ambos os lados.

Final contra Tomas Berdych é meio caminho andado pra qualquer jogador. Infelizmente. O tcheco termina o ano no top 20 por 9 temporadas e tem menos títulos que Gasquet e Simon, por exemplo – com todo respeito aos franceses. Troféus “pequenos”, é verdade – assim como os de Berdych. Mas, pela regularidade e ausência de lesões, poderia ter feito muito mais, o que é assunto pra outro post. Em 2015, fez ao menos quartas em todos os torneios e todas as derrotas foram para top 10. Algo que os poetas urbanos questionariam nos muros do CT: “Como ser campeão sem ganhar clássico?”.


Depois da curva
O que Monte Carlo mostrou que poderíamos ter mais, pelo bem do circuito: Cilic e Jo-Wilfried Tsonga sem lesão e ganhando jogos, John Isner e Milos Raonic no saibro.

O que prometia e aos poucos perde(u) a força: Viktor Troicki, Andreas Seppi, Bernard Tomic (o saibro não ajuda) e Jiri Vesely (idem).

O que ainda falta em 2015: Ernests Gulbis jogar tênis.

O que ainda falta na vida: Grigor Dimitrov e Fabio Fognini sem altos e baixos.

O que não perder em Barcelona: Kei Nishikori, Nadal e outros cabeças de respeito, o que o saibreiro Pablo Cuevas e o lesionado Nick Kyrgios podem fazer.

WTA
Semana de Fed Cup também é semana de WTA, veja bem. Assisti pouco – as quartas e parte da final. O que fica claro é que esse título inédito de Teliana Pereira teve início há duas semanas, com o troféu do ITF US$ 50 mil de Medellín, além da moral lá em cima depois de bater a italiana Francesca Schiavone na estreia em Bogotá.

São 10 vitórias seguidas. E sem perder sets. Há dois meses a pernambucana viu seu ranking sofrer depois do Rio e nem fez finais em ITFs US$ 25 mil no Brasil. Coisas que só são proporcionadas pelo fute.... opa, pelo tênis. Detalhe estatúpido percebido depois da final: Teliana foi a última a entrar na chave principal diretamente (era 147ª no fechamento). Agora é 81ª.


Como se não bastasse, troféu nas duplas para Bia Haddad e Paula Gonçalves. A pupila de Carlos Kirmayr já tinha um título e três vices de ITF US$ 25 mil em 2015, um deles com Bia. Há de se destacar também o bom momento da canhota. Passado o sofrimento do Rio, a jogadora de 18 anos colheu os frutos por pensar alto: rodada final do qualifying de Charleston e oitavas em Bogotá, depois de furar o quali. Melhor ranking da carreira, em 168ª, e é top 100 no ranking de 2015 (84ª), assim como Teliana (43ª).

Como essa é uma semana pra comemorar, é hora de destacar que o jejum de 27 anos sem um título de WTA terminou, e não ler “jejum de 27 anos” e ficar: 27 anos... mas, 27 anos!? Se existe espaço para lamentar, é a data do torneio. Se Medellín e Bogotá fossem antecipados em uma semana, Teliana estaria na chave de Roland Garros. A lista fechou com o ranking da última semana (13/abril) e contou apenas os pontos de Medellín. A pernambucana jogará o quali.

Instagram da Paula Gonçalves (https://instagram.com/goncalves_paula/)

Fed Cup
A República Tcheca tem tantas opções que se permite não escalar a 12ª do mundo e fazer 3 a 0. Imagino como deve ser difícil para Karolina Pliskova fazer o início de ano que ela fez e ainda assim ser preterida na semifinal contra a França. As 23 vitórias no ano incluem duas sobre a sua substituta-concorrente e ela foi a única convocada da semi que estava na primeira rodada, no Canadá, uma semana depois do Australian Open. Por outro lado, também é fácil defender Lucie Safarova, que ganhou título importante (Doha) e tinha míseros 10 pontos a menos que Pliskova. Serviços prestados parecem mais conversa...


Na outra semifinal, a Rússia sem Maria Sharapova, a Alemanha com três top 20 e o que acontece? Só uma é escalada pro sábado. Sabine Lisicki e Julia Goerges perderam, Andrea Petkovic e Angelique Kerber resgataram no domingo (russas somaram 4 games em 4 sets) e as alemãs ainda pagaram o preço nas duplas. Tchecas e russas repetem a final de 2011, agora na República Tcheca. Kvitova e companhia tentam o 4º título em 5 anos, quando ninguém mais lembrar que a Fed Cup existe, dias 14 e 15 de novembro.


Nos play-offs, só a Itália se manteve no Grupo Mundial. Serena Williams sofreu pra garantir os pontos em simples, manteve o 100% em 2015 (quando não dá W.O.) com 20 vitórias, tomou pneu nas duplas e nem foi pra ex-parceria número do mundo. Sara Errani e Flavia Pennetta salvaram as donas da casa.

Em Polônia 2 x 3 Suíça, Martina Hingis jogou simples e se comprometeu pras duplas. A ex-número 1 provou o que afirma: entre jogar simples com condições de ganhar uma ou duas rodadas e jogar duplas podendo ser campeã, escolheu a segunda opção no circuito. Aos 34 anos, Hingis tirou 4 games da Radwanska que ganha e teve 6/2 5/2 contra a Radwanska que perde. Poderia ter ganhado. Como poderia ganhar umas rodadas em um ou outro torneio. Timea Bacsinszky salvou atropelando em simples e com 9/7 no 5º ponto com Viktorija Golubic.

Holanda 4 x 1 Austrália tinha pouco apelo.

Por fim, mais Shvedova (não consegui printá-la ABRAÇANDO a Teliana ao posar com o troféu)...


... e menos Bouchard (já tinha precedente).



Para constar, o para-raio de polêmicas de Melbourne perdeu para Alexandra Dulgheru (69ª) e para Andreea Mitu, 104ª da WTA. Canadá 1 x 3 Romênia. Bouchard podia dar um tempo, ir pra um desses retiros, chamar Radwanska, Gulbis, Stan Wawrinka e mais um pessoal. O suíço, agora 10º do mundo, tornou público no domingo o processo de separação da esposa. Que afeta em quadra, não há dúvida. Mas até o início de fevereiro estava tudo bem (títulos de Roterdã e Chennai e semi no Australian Open)? E o casamento acabou em 2 meses? Os tabloides ingleses que tratem de investigar, hashtag temqueverissoaí.

E aquele abraaaço!



5 de março de 2015

Suíça inicia defesa do título da Copa Davis



RÁ! Isso não vai acontecer.

Fim de semana especial, Copa Davis é Copa Davis, haaaja coração, heróis improváveis, blá blá blá e...

confrontos!

Parênteses 1: Nenhuma viagem ou piso anormais, dignos de nota e que serão protagonistas.


Parênteses 2: Único confronto não hard + indoor é Argentina X Brasil, saibro + outdoor.

Alemanha X França
Cotação* antes e depois do sorteio: 3,75 X 1,20 / 4,20 X 1,20
Repetição das quartas de 2014. Receio com os vice-campeões só não é maior porque a Alemanha não tem um super time. Gilles Simon não é confiável em Davis (1-8 em jogos “vivos) e Gael Monfils em cinco sets é sempre Gael Monfils. Arnaud Clement quis garantir o ponto das duplas e deve confirmar com Julien Benneteau/Nicolas Mahut. Pelos mandantes, a missão do dono do time Philipp Kohlschreiber é difícil porque mesmo com possíveis duas vitórias a definição iria para o 5º jogo. Benjamin Becker, 39º do mundo, tem 0-5 na Davis e Jan-Lennard Struff (74º) faz sua estreia contra Simon. A escolha pelo novato facilitou para os visitantes, teoricamente.
França 3 a 1.

Fim de festa

Grã Bretanha X Estados Unidos
Cotação: 1,70 X 1.95 / 1,70 X 1,95
Repetição da 1ª rodada de 2014. Acompanho a cotação sugerindo o confronto menos previsível. Assume-se que Andy Murray garanta dois pontos e Bob/Mike Bryan a dupla (John Isner pode complicar o número 1 britânico, mas na fase atual e em cinco sets é mais improvável). O top 20, no entando, bate James Ward na sexta. Donald Young, que chegaria ao domingo com 0-2 na Davis (ambas derrotas para Murray), e Ward, que nunca foi top 100, decidindo a vaga para as quartas de final no 5º ponto seria... bem... meio... não há palavras.
EUA 3 a 2.

Um passo à frente quem tá de bem com a vida

República Tcheca X Austrália
Cotação: 2,35 X 1,50 / 2,60 X 1,40
A fase dos tchecos é péssima, e ainda assim Lukas Rosol e Jiri Vesely têm rankings melhores que Bernard Tomic e Sam Groth, respectivamente. A expectativa australiana se dá pela ausência de Tomas Berdych e por terem mais opções para cinco jogos. A escolha por Thanasi Kokkinakis na sexta parece falta de confiança em Groth. Fica claro que Rosol e Vesely jogarão todos os pontos, a menos que os tchecos joguem um estreante na fogueira e entreguem a dupla – até o duplista top 70 Frantisek Cermak (0-2 na Davis) seria opção aceitável, porque mesmo com mais derrotas que vitórias, ele passou pela gira sul-americana jogando com Vesely. Desconheço problemas com federação/capitão. Austrália não ganha um confronto do Grupo Mundial desde 2006.
República Tcheca 3 a 2 (zebra?).

Cadê todo mundo?

Cazaquistão X Itália
Cotação: 2,95 X 1,30 / 3,75 X 1,22
A boa fase de Fabio Fognini, Andreas Seppi e Simone Bolelli gerou opções para todos os pontos, e o número 1 foi preterido por ter feito a gira sul-americana no saibro. A aposta em uma vitória tranquila dos visitantes tem seus riscos. O alerta está em alguma ligação obscura que os russos-cazaques Mikhail Kukushkin e Andrey Golubev devem ter com a Copa Davis (o “bicho” deve ser gordo). A história recente inclui rebaixar a Suíça com Stanislas Wawrinka em 2010, derrubar a República Tcheca com Berdych e fora de casa na estreia em 2011 e as quartas de final nos dois últimos anos. Golubev nunca perdeu um jogo que foi ao quinto set na vida.
Itália 3 a 1. Com ressalvas.

Felicidade justificada. Ou não

Argentina X Brasil
Cotação: 1,20 X 3,75 / 1,25 X 3,20
Ponto nas duplas é a garantia brasileira com Marcelo Melo e Bruno Soares, que vêm de sete vitórias na competição. Logo, a meta inicial é ficar 1 a 1 na sexta. Teoricamente, Leonardo Mayer deveria carregar dois pontos nas costas para os donos da casa. Mas o saibro lento pode não ser tão favorável ao número 1 rival. Uma vantagem argentina é poder colocar Federico Delbonis ou Diego Schwartzman descansados no domingo para enrolar João “Feijão” Souza e Thomaz Bellucci. Por outro lado, a mudança de número 1 nesta semana daria a “sorte” de ter o jogador mais experiente – Bellucci – no 5º e decisivo ponto. A escolha por Carlos Berlocq como número 2 foi pautada justamente nisso e pode dar resultado no primeiro jogo. Delbonis está nas duplas por acaso, só deve jogar se os argentinos realmente abrirem bem desse ponto.
Brasil 3 a 2 com drama e otimismo. Argentina 3 a 1 com pessimismo.

A meia tá errada

Sérvia X Croácia
Cotação: 1,03 X 9,00 / 1,01 X 11,00
Uma das barbadas do final de semana. Novak Djokovic deve ceder uns seis games a Mate Delic na sexta e Borna Coric até pode surpreender Viktor Troicki, no cenário mais otimista para os croatas. Nenad Zimonjic carregaria as duplas, apesar de vir de quatro derrotas seguidas na Davis, e Djokovic precisaria voltar à quadra no domingo.
Sérvia 3 a 0 e o domingo é recreação.

Traz mais uma

Canadá X Japão
Cotação: 1,22 X 3,75 / 1,22 X 3,75
Repetição da 1ª rodada de 2014. Ponto das duplas com Daniel Nestor e alguém dá tranquilidade aos mandantes. Kei Nishikori deve forçar mais um duelo da nova rivalidade com Milos Raonic, no 4º jogo, e, ainda que vença, só deve prorrogar o sofrimento japonês. Tatsuma Ito ou Go Soeda dando a vitória aos visitantes no 5º jogo contra Vasek Pospisil parece ser daquelas coisas que a Davis pode proporcionar. Mas se alguém te contar você não acredita. Japão é visitante depois de nove confrontos.
Canadá 3 a 1, com Raonic d. Nishikori no 4º jogo.

É domingo

Bélgica X Suíça
Cotação: 1,01 X 11,00 / 1,01 X 11,00
3 a 0 Bélgica. Até sem David Goffin. Isso se a Suíça não tiver mais desertores até domingo e não sofrer W.O..

Já pode ir embora?

*Sportingbet.

Fora da curva
No Grupo I, o que pode ser mais interessante é Suécia X Áustria, com os dois países praticamente completos (Elias Ymer, Christian Lindell, Robert Lindstedt e Johan Brunstrom X Andreas Haider-Maurer, Jurgen Melzer, Gerald Melzer e Alexander Peya). Só faltou Dominic Thiem para os visitantes, que devem levar. O vencedor pega a Holanda em julho em busca da repescagem, em setembro.

Eslováquia X Eslovênia pode servir para decorar quem é eslovaco e quem é esloveno. Mas Blaz Rola e Aljaz Bedene são desfalques da... da...

Na América do Sul, Uruguai X Colômbia já vale vaga nos play-offs para o Grupo Mundial. Pablo Cuevas é o exército de um homem só para os donos da casa e precisa fazer milagre nas duplas, contra Juan Sebastian Cabal e Robert Farah.

20 de fevereiro de 2015

Bellucci, Feijão e o momento

Eu podia estar julgando campeão patrocinado por ditador sem saber se os outros 11 concorrentes não têm fontes tão ou mais sujas – e públicas – para realizar a “maior festa do planeta”. Eu podia estar condenando o doping (hã?) e um negócio sendo assumidamente um “blogueiro especializado” em outro negócio (que tem bola, grama e apito). Eu podia estar falando do apito – ou da polícia, ou de mortes – de um negócio em que do que menos se fala é do próprio negócio. Eu podia estar apostando em alguns filmes sem vê-los porque depois da premiação não vão conferir se foram apostas certeiras ou furadas. Mas já tem muita gente falando tudo isso – e às vezes falando tudo isso ao mesmo tempo.

Fiquemos mesmo com o tênis, aquele esporte monótono e demorado. Dobradinha Brasil-Rio Open é uma oportunidade preciosa para quem geralmente não entraria em torneios assim – e, para todos, duas chances de jogar no Brasil, em um circuito em que há mais viagens do que toss recolhido pela Sharapova. Em 2014, Thomaz Bellucci e Teliana Pereira aproveitaram muito bem as semanas de Rio-São Paulo. Este ano, na ordem invertida no calendário, fizeram bom proveito João Souza e Bia Haddad – e Gabriela Cé.


Antes do “caso” Bellucci-Feijão-número 1-Copa Davis-João Zwetsch, alguns desavisados devem pensar: ou quem viaja até o Brasil está desinteressado(a) ou o(a)s brasileiro(a)s deveriam ter rankings muito melhores. Na verdade, poderiam. Deveriam, se fosse uma ciência exata. Exemplo: Teliana em 2014 era 98ª da WTA e somou no Rio + Florianópolis, mesmo com a mudança de piso, 4 vitórias. 3 dessas sobre adversárias de melhor ranking, na época (60, 66, 81). Teliana não chegou a ser 60 do mundo (ainda). No meio do caminho acontece, a cada semana, troca de piso, de altitude, lesão, mudança de calendário, um jogo que escapa, um dia ruim, uma chave mais dura, etc, etc.

E não é sempre que o fator torcida vai colaborar. Por isso, há de se aproveitar as raras oportunidades em casa (Florianópolis este ano mudou para o final de julho), e não esperar que Bia, 234ª, deve estar no top 100 em um piscar de olhos porque ontem ganhou da 77ª da WTA. A canhota pode estar. Devagar e sempre. (Independente do que aconteça diante da italiana Sara Errani, 16ª e cabeça de chave 1 do torneio, em instantes).

De volta ao masculino, a bola da vez é nego drama. Feijão repetiu as campanhas de Bellucci em 2014: semi em São Paulo e quartas no Rio (boas chances de ir à semi logo mais, contra o austríaco Andreas Haider-Maurer). E começam as comparações incomparáveis.


Antes dos torneios no Brasil, Bellucci tinha em 2014 um ranking pior do que Feijão em 2015, muito por conta de um 2º semestre de 2013 desastroso. A empolgação com as duas semanas foi muito grande, por motivos diferentes. Para Bellucci, era retornar ao top 100 e, quem sabe, a posições mais altas que ele já ocupara anteriormente, pra ser cabeça de chave nos torneios maiores, etc. Para Feijão, agora, é o melhor momento da vida. E aí já aparece o 1º ponto a se considerar: a expectativa que público, imprensa, patrocinadores, etc tiveram sobre cada um nos últimos anos.

Algo muito produtivo em torneios é poder trocar ideias, teses e opiniões novas (ou antigas, com visões novas). Em uma dessas discussões, ouvi que a torcida fica muito mais do lado de Feijão no Brasil. Não entro no campo de carisma, vibração, identificação. Acredito que um ponto importante, muitas vezes deixado de lado, é a expectativa por resultados de cada tenista. Bellucci entrou no top 100 em meados de 2008 e desde então é o “alvo” do tênis brasileiro. Vez ou outra havia Marcos Daniel, Ricardo Mello, Thiago Alves, Feijão e Rogério Dutra Silva no mesmo torneio ou em outra chave de ATP pelo mundo. Feijão, cinco meses mais novo que Bellucci, teve entradas e saídas do top 100 em 2011 e 2012 e nas últimas nove edições do Brasil Open, apenas 2 vezes jogou sem precisar de wild card ou qualifying. A torcida, que geralmente o via diante de um adversário de mais “nome” e/ou ranking seguia a linha de “o que vier é lucro”. E, de certa forma, era mesmo. Fevereiro de 2015 parece ter mudado isso. A conferir.


Há exatamente um ano, Feijão era o nº 1 do Brasil. Na ocasião, era mais por conta da queda de Bellucci, já que nenhum estava no top 100, o que difere da situação atual. A evolução do paulista de Mogi das Cruzes passa pelo mental, físico, confiança, etc desde os Challengers em 2014. A questão do número 1 me parece supervalorizada, talvez para dramatizar sobre a fase de Bellucci ou para colocar a Copa Davis em pauta dia sim e dia também. O fato – que deve se concretizar em caso de vitória de Feijão hoje ou se Bellucci não chegar à semifinal de Buenos Aires, na próxima semana – é bom para os dois, e aí entra outra daquelas conversas em torneio.

Bellucci está praticamente há oito anos sozinho – no bônus e no ônus – recebendo atenção. Ao menos em simples. Tomemos como exemplo a vizinha Argentina e, aleatoriamente, um ranking de 10 anos atrás. Havia 10 argentinos entre os 80 do mundo. A atenção, e também a expectativa, é dividida entre vários nomes durante os grandes torneios. Fosse esse o caso de Bellucci e uma derrota em estreia de Grand Slam, por exemplo, não seria manchete, mas sim o pé de uma nota contando a vitória de um compatriota, quem sabe.


Nesse aspecto, seria ótimo que, não apenas no Brasil, as chaves de ATP pudessem ter 4, 5, 6 brasileiros. Só Feijão e Bellucci no top 100 ainda é pouco, o Brasil merece mais, diria o poeta. Merece?

Depois da curva
Do outro lado do mundo, em países de faz de conta – e fazem muito bem, diria outro poeta – semifinais interessantes no WTA Premier de Dubai: Garbiñe Muguruza X [17] Karolina Pliskova e [1] Simona Halep X [5] Caroline Wozniacki. Mesmo sem as principais cabeças de chave de um lado, uma tradição da WTA, vale o início de ano da tcheca e a busca por um título de peso, também para a venezuelana-espanhola. Em comum, o fato de que todas nasceram na década de 1990, particularidade que passa longe da ATP (hoje, 28 das top 100 têm menos de 21 anos; entre os homens, são 4). Mas isso já é assunto pra outro post. Semifinais, a conferir.

Fotos: Brasil Open.

4 de fevereiro de 2015

As últimas palavras de Melbourne

Difícil praticar o desapego, mas chegou a hora passou da hora. Último post do Australian Open. Declarações das categorias “tolerância zero” e zé graça” pra descontrair.

Tolerância zero
Contexto: A australiana Jarmila Gajdosova avança à segunda rodada depois de 9 anos seguidos sendo eliminada na estreia do Australian Open.
Pergunta: Você pensou que esse dia chegaria?
Jarmila Gajdosova: Se eu não pensasse não estaria jogando, né?

Pergunta: Você está usando umas roupas chamativas. Você se inspirou de alguma maneira nas roupas de Andre Agassi?
Thanasi Kokkinakis: Não sei. Você tem que perguntar pra Nike. Ela que me deu.

Pergunta após a vitória de Maria Sharapova sobre Eugenie Bouchard: Você gostaria de ter um grupo de fãs te acompanhando e cantando o jogo todo?
Maria Sharapova: Não, na verdade eu prefiro escrever minhas próprias músicas e cantá-las.

Pergunta: Ontem o Wayne Ferreira disse que ele acha que você vai estar (entre as melhores) por muito tempo, que você vai ganhar muitos Slams, e que ele adora a sua atitude. Como você se sente ouvindo comentários como esse de ex-jogadores?
Eugenie Bouchard: Quem disse isso?


Zé graça
Rafael Nadal: O ano passado foi duro porque eu tive problemas nas costas aqui, depois no Rio, depois em Roland Garros, depois eu não tive mais porque eu não joguei mais (sorrindo).

Victoria Azarenka: Eu amo a energia do povo daqui, o país inteiro realmente ama esporte. É o primeiro Grand Slam do ano e o que o torneio tem feito para melhorar é impressionante. Acho que você fica empolgado toda vez que vem jogar aqui. Não sei, acho que vou adotar uma criança australiana ou algo assim.

Pergunta: Quando você voltar aqui no ano que vem, onde você gostaria de estar?
Nick Kyrgios: Melbourne.

Pergunta: Existe uma voz em você que diz “se o Seppi pode derrubar o Roger...”
Serena Williams: ... eu posso derrubar o Roger? Não tem (risos).

Contexto: Kei Nishikori ainda não se sente confortável na posição de número 5 do mundo.
Pergunta: Com que número você ficaria mais confortável?
Kei Nishikori: Não sei. Talvez 15, 20 (sorrindo).

Pergunta: Qual é o futuro do saque e voleio, na sua opinião?
Novak Djokovic: Eu vou pra rede para o aperto de mãos (sorrindo).

Pergunta: Por que você é tão bom na Austrália?
Stan Wawrinka: Por que não?


Por que não?

3 de fevereiro de 2015

Os supertenistas por trás dos técnicos

Stefan Edberg, Boris Becker, Michael Chang, Magnus Norman, Ivan Ljubicic, Martina Navratilova, Lindsay Davenport, Amélie Mauresmo. Esses foram alguns nomes que pautaram diversas conversas durante o Australian Open. Em comum, carreiras bem sucedidas dentro de quadra e um retorno ao tênis como treinadores. Nada de revolucionário. O ponto, que parece ter vindo mais à tona em Melbourne, é que eles estão cada vez mais em foco e até “roubam” os holofotes que, naturalmente, pertencem aos atletas.

Em 2012, quando Andy Murray trouxe Ivan Lendl de volta ao tênis depois de quase 20 anos, a aprovação dava conta de que, além do trabalho nos treinamentos, o tcheco-americano diluiria o peso que o britânico carregava extra-quadra. As atenções não teriam um único alvo. Funcionou enquanto durou: 2 troféus de Grand Slam e ouro olímpico em quase 3 anos. Com o fim da parceria, Murray se juntou a Mauresmo, ex-número 1 e campeã do Australian Open e de Wimbledon. Luta sexista/feminista à parte, a repercussão da escolha – conscientemente ou não –, até agora, tem sido parecida: sobre Murray não há muito que falar, vamos explorar Mauresmo porque é novidade, ele segue sua vida dentro de quadra.


Depois da final de domingo, Murray ouviu 3 perguntas sobre a francesa, 1 delas porque não tinha respondido a anterior. Imagino quantas seriam em caso de título, em uma reciclagem do “britânico quando ganha, escocês quando perde”: méritos de Mauresmo quando ganha, de Murray quando perde.

A parcela de crédito ou culpa de cada técnico, estrela ou não, é sempre difícil de mensurar. Quando o tenista já é consagrado fica ainda menos visível para os espectadores. É improvável uma transformação drástica nas características do tenista e a companhia da estrela no dia a dia parece mais camaradagem e ajuste de um ou outro detalhe para o atleta. Caso de Roger Federer-Edberg e Novak Djokovic-Becker.

Por outro lado, a missão de alçar uma revelação ao topo é diferente, mas também “obscura” em termos de meritocracia. Em novembro, a norte-americana Madison Keys se juntou à compatriota Lindsay Davenport, ex-número 1, com 3 títulos em 7 finais de GS. Naquele momento, a tenista de 19 anos já tinha 1 título, passagem pelo top 30 da WTA e 3 vitórias sobre top 10. Menos de 3 meses de trabalho e no 3º torneio juntas, Keys alcança a semifinal do Australian Open. Quanto foi mérito de Davenport? Novamente, difícil saber. Muitas vezes nem o próprio tenista percebe em que está evoluindo. Mas, voltando ao ponto, a exploração da figura do técnico se mantém. Tanto que, após a derrota para Serena Williams, a jovem pôde se divertir já no final da coletiva com o seguinte fragmento:

Pergunta: Não teve nenhuma pergunta sobre a Lindsay (Davenport) ainda. Você poderia ter feito isso sem ela?
Madison Keys: Você quer dizer que não teve nenhuma pergunta sobre a Lindsay HOJE.


Os “supertécnicos” não dão coletivas pós-jogo e pré-final. Raramente são expostos publicamente pelos seus comandados. Não precisam se justificar sobre essa ou aquela tática de jogo definida junto ao jogador. Muitas vezes exercem a função juntamente com outro treinador. São lembrados imediatamente depois de uma jogada que foge das características do pupilo e dá certo em determinado ponto, o tal “dedo do técnico”. Em resumo, é um ótimo cargo. A menos que você seja Jimmy Connors e vá trabalhar com Maria Sharapova.

Fora da curva
Ainda sobre a supervalorização do técnico – que, é claro, tem o seu valor e a capacidade/responsabilidade de tirar do tenista o melhor que ele pode render –, um assunto explorado além da conta em Melbourne atende pelo nome de Daniel Vallverdu. Recém-chegado à equipe de Tomas Berdych, o venezuelano chegou a receber os créditos pela campanha sólida do tcheco. Campanha esta que já acontece há 5 anos no Grand Slam australiano, com 3 quartas e 2 semis.


Porém, o auge da exploração de Vallverdu, que trabalhou com Murray por bons 5 anos, veio na semifinal que reuniu o atual e o ex-comandado. Antes, durante e depois do jogo o nome (e a importância) do treinador foi exaustivamente exaltado. Talvez se a mudança de técnicos de Murray não fosse tão recente a repercussão seria menor. Talvez não. O britânico rechaçou o exagero tanto na entrevista ainda na quadra como na coletiva pós-jogo e, em uma fala mais abrangente, lembrou quem ganha ou perde cada partida, de fato.

“Todos podem entrar no jogo com um plano ou ideias de como quer jogar. Mas coisas que você acha que vão funcionar nem sempre funcionam, você precisa ser capaz de fazer ajustes no meio do jogo. É aí que não se trata, necessariamente, do treinador”

Depois da curva
Acrescentando à frase acima, outro aspecto interessante em Grand Slam é observar como os principais nomes do circuito se preparam para adversários pouco conhecidos, de resultados e ranking modestos. O velho “eu nunca olho a chave” ainda reina, só para depois de aposentado o tenista escrever em um livro que olhava, sim, a chave. Serena Williams antes da estreia, por exemplo, quase chegou a dizer que só descobre quem é a sua adversária quando entra na quadra!

Pergunta: O que você sabe sobre a sua primeira adversária? Você sabe alguma coisa? O nome dela é Alison.
Serena Williams: Eu não sei com quem eu jogo. Eu nunca olho a chave. Eu acho que o nome dela é Alison. Eu sempre tento me manter muito focada.

Pergunta: Ela é belga.
Serena Williams: Ok.

De volta ao assunto 15 perguntas depois:

Pergunta: O sobrenome da sua adversária, você pode dizer?
Serena Williams: Eu não olho a chave. É, eu nunca olho a chave. Eu ouvi que o seu nome é Alison.

Pergunta: O sobrenome é Van Uytvanck.
Serena Williams: Eu nunca sei nada. Eu nunca olho a chave, então...


Cada tenista sabe como gosta de encarar os seus adversários e parte da análise dos rivais é função do treinador. Porém, uma coisa é reproduzir o clássico “não me importo que favoritos caiam precocemente porque estou longe de eventualmente enfrentá-los” e outra é dizer que não se importa com o seu próximo adversário. Quase um complexo de futebol brasileiro: eu sou o melhor e não preciso me preocupar com o outro time; faço o jogo que eu gosto e eles que precisam se adaptar ao meu estilo. Funciona enquanto funcionar...

Em geral, a abordagem dos homens me parece mais cuidadosa e até mesmo mais respeitosa – com o tenista e com o esporte. Fiquemos com 3 exemplos deste Australian Open para encerrar:

Djokovic, perguntado sobre Gilles Muller antes do confronto inédito de oitavas de final:
“Mesmo que eu nunca o enfrentei eu o vi jogar muitas vezes, porque ele está no circuito há um tempo, foi o melhor juvenil do mundo, tem um grande jogo, um grande serviço, vai à rede, o que não é algo que muitos jogadores fazem hoje em dia. Tem um bom saque com slice, é um jogador muito agressivo. Sofreu com algumas lesões nos últimos anos, mas acho que nos últimos seis meses ele tem jogado perto do seu melhor tênis. Ele definitivamente merece respeito, pela experiência que tem, por alcançar a 4ª rodada, as finais (semifinal) de Sydney na semana passada, então ele está em uma boa sequência”.

Serena, questionada se o “estudo” sobre adversárias que ela não conhece muito bem é feito na quadra ou em pesquisas antes do jogo, respondeu:
“É algo que eu sempre fiz na quadra”.

Petra Kvitova, após a derrota para Keys na 3ª rodada:
“Durante o jogo eu não gosto de tentar descobrir o que está acontecendo se ela está jogando tão bem. Eu ainda estava tentando focar em mim”.


Fotos: Getty Images (1 e 3) e Tennis Australia.

28 de janeiro de 2015

Australian Open 2015: Pré-semifinal

Todas as quartas de final do Australian Open em sets diretos no masculino. Se a rigor não houve drama, houve histórias diferentes para cada uma delas. Novak Djokovic passeou contra Milos Raonic sendo melhor em tudo. E com sobra. Stan Wawrinka fez o jogo que quis sobre Kei Nishikori e cresceu no momento certo do torneio. Tomas Berdych foi competente como em todas as rodadas anteriores e, se não era o favorito de fato, dentro de quadra foi o dono das ações diante de Rafael Nadal. Andy Murray, este sim bem mais cotado do que Nick Kyrgios, respondeu a todas as investidas do australiano sempre com uma jogada ainda melhor. Passadas e lobs pareciam treino.

Hora da última madrugada de simples em Melbourne, com os duelos femininos e, na rodada matutina no horário brasileiro, o encontro entre tcheco e britânico.


Novak Djokovic (SRB) [1] X Stan Wawrinka (SUI) [4]
- H2H: 16 X 3 (últimos 3 encontros em Grand Slam foram ao set decisivo)
- Cotação*: 1,18 X 4,50 / 1,15 X 4,75
Inevitável a memória não puxar os 5 sets que os dois fizeram na duas últimas edições do 1º Grand Slam do ano. Em 2013, Djokovic 12/10 nas oitavas. Em 2014, Wawrinka 9/7 nas quartas. A expectativa para que o raio caia pela 3ª vez no mesmo lugar pode ser frustrada se o suíço não repetir o padrão de jogo que teve contra Nishikori. Nesse caso, uma vitória rápida de Djokovic poderia ser decepcionante, mas não surpreendente.


Wawrinka precisa ser agressivo desde a 1ª bola, o que já traz o 1º problema: colocar a bola em jogo e em condições de mandar no ponto. Djokovic, desde a versão 2011, se apoia – e com razão – nas trocas de bola (movimentação, ataque, contra-ataque, etc). E em Melbourne ainda acrescentou um serviço que vem fazendo mais estragos. Entre os semifinalistas, é quem mais acerta o 1º serviço (69%), quem mais vence pontos com o 1º serviço (84%) e com o 2º (68)! Uma arma e tanto para confirmar seus games rapidamente e ficar tranquilo para em seguida focar na devolução, mais uma arma e tanto. O outro aspecto complicado para o suíço é o ônus de ser agressivo: correr mais riscos. Diante de Nishikori a execução beirou a perfeição. Dois dias antes, contra Guillermo Garcia-Lopez, esteve à beira de um desastre.


Tomas Berdych (CZE) [7] X Andy Murray (GBR) [6]
- H2H: 6 X 4 (3 X 3 em quadra dura. Não se enfrentaram em 2014; Berdych ganhou em 2 sets nos encontros em 2013, nos Masters 1000 de Madrid e Cincinnati)
- Cotação: 2,30 X 1,61 / 2,10 X 1,70
O histórico em Grand Slam está do lado do britânico, que voltou às grandes atuações em Melbourne e carrega a experiência de 7-7 em semifinais de Major. O tcheco, que tem o vice de Wimbledon-2010 no currículo, só viveu essa rodada outras 3 vezes, saindo derrotado. O embalo, no entanto, vem em quadra. Berdych parece estar naquela semana (ou 2 semanas) em que acredita que pode ganhar de qualquer um – diferente de quando apenas o discurso acredita – não se perdeu em nenhum momento em 5 jogos e tudo está conspirando a favor.


Murray foi “favorecido” pela queda precoce de Roger Federer, mas, nos principais testes, passou com maestria sobre Grigor Dimitrov e Kyrgios. O cenário: as 2 bolas iniciais devem definir a posição de cada um dentro do ponto, visto que estão com o saque e a devolução afiadíssimos. Ambos apostam demais no 1º serviço (Berdych ganha 83% dos pontos e Murray 78% nessa situação até o momento no torneio). Nas trocas de bola, o tcheco não deve ir para a rede nem por decreto. Contra Nadal foi o único “buraco” na partida, quando tomou as mais variadas passadas, e diante de Murray pode ser ainda pior. A bola morta do meio da quadra – que Berdych, surpreendentemente, não jogou nenhuma pra fora ou na rede nas quartas – deve encerrar o ponto. Slices e angulações são grandes aliados do britânico.

* Cotação: Bet365 / Sportingbet.

Fora da curva
Pra ganhar sozinho, Djokovic e Berdych em 4.


Feminino
As quartas de final começaram decepcionantes com Simona Halep eliminada pelo 2º ano seguido nas quartas e com um pneu no 2º set e terminaram decepcionantes com Dominika Cibulkova sendo presa fácil para Serena Williams. No meio disso, Maria Sharapova mandou no jogo contra Eugenie Bouchard e o sono esteve perto dos seus melhores dias durante a vitória de Madison Keys sobre Venus Williams.

Se no masculino as semifinais têm 4 certezas (mesmo sem Federer e Nadal), entre as mulheres têm 2 surpresas. Ekaterina Makarova estava no quadrante de Ana Ivanovic (5) e Halep (3) e mesmo se alguém, há 10 dias, a colocasse na semifinal, não seria como a única a não perder sets no torneio. Segue como menos cotada diante de Sharapova (contra quem venceu apenas 1 set em 5 jogos), assim como na semi do US Open de 2014 contra Serena.

Nos últimos anos, o Australian Open lançou Sloane Stephens em 2013 e Bouchard em 2014 e ambas surpreenderam até a semifinal. Chegou a hora de Keys, também de 19 anos. O duelo inédito do encontro de gerações com Serena tem grande favoritismo da número 1, mesmo com gripe. Além da experiência, Serena tem a manutenção da liderança da WTA em jogo como motivação extra. Caso Serena vá à decisão, Sharapova não a ultrapassaria mesmo com o título.


Fotos: Tennis Australia.

26 de janeiro de 2015

Australian Open 2015: Pré-quartas de final

Novak Djokovic respondeu à altura ao saque de Gilles Muller e avançou sem drama – leve queda de rendimento no 3º set, quando cedeu alguns break points. Milos Raonic teve um horário que não favoreceu. As estatísticas controversas mostram 30 aces, 81 winners e uma quebra sofrida em 5 sets contra Feliciano Lopez. Kei Nishikori optou por entrar acordado desta vez e se aproveitou de um David Ferrer cansado por conta das rodadas anteriores. Stan Wawrinka fez de tudo pra jogar 5 sets e esbarrou na resistência de Guillermo Garcia-Lopez, que desperdiçou 6-2 no tie-break do 4º set.

Hora das quartas de final do Australian Open.

Novak Djokovic (SRB) [1] X Milos Raonic (CAN) [8]
- H2H: 4 x 0 (os 2 encontros em melhor de 5 sets foram decididos em 3, mas ambos no saibro – Copa Davis-2013 e Roland Garros-2014)
- Cotação*: 1,06 X 7,50
O sérvio substitui um saque-e-voleio limitado das oitavas por um saque + demais golpes dignos nas quartas. O backhand ainda é o aspecto mais vulnerável, mas o canadense domina cada vez mais os pontos com o forehand (especialmente inside-out). E os números no saque impressionam: 72% de acerto do 1º serviço, com os quais ganha 84% dos pontos disputados, e sofreu 2 quebras até o momento (Djokovic só sofreu 1, o que passa batido por conta das demais qualidades a serem enaltecidas). Curiosamente, o sérvio é quem mais ganha pontos com o 2º serviço em Melbourne (67%; Raonic tem 64%). Pende para o sérvio pelo conjunto da obra. Deve testar a paciência do canadense alongando as trocas de bola e a segurança do seu serviço diante de uma das melhores (ou a melhor) devolução do circuito.


Stan Wawrinka (SUI) [4] X Kei Nishikori (5)
- H2H: 2 x 1 (último encontro nas quartas do US Open-2014, com vitória de Nishikori em 5 sets)
- Cotação: 1,95 X 1,75
Confronto dependente da bipolaridade que ambos mostraram até aqui, parece o mais imprevisível. Wawrinka foi bem sofrido nas oitavas, enquanto o japonês oscilou mais na 1º semana, porém, mesmo na vitória em 3 sets sobre Ferrer, somou mais erros não-forçados do que winners (44 a 43). Nishikori busca repetir o caminho de Nova York, com o suíço nas quartas e possivelmente Djokovic na semi. Façanha desafiadora.


Tomas Berdych (CZE) [7] X Rafael Nadal (ESP) [3]
- H2H: 3 x 18 (Nadal ganhou os últimos 17 encontros, de 2007 pra cá)
- Cotação: 2,35 X 1,53
Talvez a melhor motivação (ou o menor derrotismo) para o tcheco seja se espelhar em Wawrinka, que tinha retrospecto de 0-12 e há exatamente um ano quebrou a escrita para levantar o troféu do Australian Open. Assim como Djokovic, Berdych não perdeu nenhum set até as quartas (o que faz pelo 3º ano seguido em Melbourne) e teve apresentações seguras nos pequenos testes pelo caminho. O retrospecto pesa demais e o espanhol parece ter se encontrado, o que diminui consideravelmente as chances de o tcheco repetir a semi de 2014. A casa de apostas ainda não confia que Nadal está pronto para o título.


Andy Murray (GBR) [6] X Nick Kyrgios (AUS)
- H2H: 1 X 0
- Cotação: 1,08 X 7,00
Até onde vai o azarão? O novo queridinho da torcida empolga, já foi muito mais longe do que o esperado, mas há de se lembrar: encontrou uma chave fraca para o padrão Grand Slam (Federico Delbonis, Ivo Karlovic, Malek Jaziri e Andreas Seppi). Azar dos favoritos que perderam antes, diria o poeta. Fato é que Murray, mesmo sendo Murray, explorou bem as viajadas de Grigor Dimitrov e diante de um adversário ainda menos experiente deve controlar a situação. A recuperação física (e as costas) do adolescente também estará à prova.


*Cotação do Sportingbet.

Feminino
Serena Williams (1) continua pegando no tranco. Dominika Cibulkova (11) foi agressiva como precisava diante de Victoria Azarenka e se conseguir tomar a iniciativa contra a norte-americana pode complicar. Mas esse “se” é do tamanho de Serena, não de Cibulkova. A aposta para quem gosta de um risco-consciente é Madison Keys, com um tênis eficiente que pode continuar surpreendendo, até mesmo diante de Venus Williams (18), que controlou a variação de Agnieszka Radwanska.

Ekaterina Makarova (10) X Simona Halep (3) é o duelo das tenistas que ainda não perderam sets, consequência de viajadas em doses homeopáticas. Em um dia normal, a segurança e o momento apontam para a romena, que com Serena nas quartas não tem mais chance de se tornar número 1 pós-Melbourne (se alguém acreditava na possibilidade...). Eugenie Bouchard (7) sofreu um apagão (ou uma "falta de energia") contra Irina-Camelia Begu que não pode se repetir. Maria Sharapova (2) tem a experiência e o retrospecto de 3-0 a seu favor. Quem conseguir tomar a dianteira no ponto estará um passo à frente (literalmente?).

Cotação aponta Serena como a aposta mais segura (1,12 a cada 1 apostado) e Venus como a favorita menos favorita (1,65). Sharapova e Halep se equivalem nos riscos (1,25).

Torcida
Para que a chuva não derrube a internet.

Fotos: Tennis Australia.